Noticia-se hoje, 26 de maio, a exoneração, a pedido, do magistrado aposentado Nagashi Furukawa da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo. O cronista é rabugento e, segundo se diz, tem gênio ruim. O dicionário explica bem o significado de “rabugice”: qualidade ou estado de quem é rabugento; mau humorado. Dentro do contexto, criaturas com tal maneira de ser não se prestam a elogiar aqueles que exercem qualquer forma de poder. Temem, às vezes com razão, alusões àqueles cidadãos que se penduram nas autoridades. Alias, há para tais indivíduos adjetivação jocosa posta com certa freqüência pelos articulistas: são os famosos “papagaios do pirata”. Toda vez que escuto a expressão, lembro-me da “Ilha do Tesouro”. Ainda tenho um exemplar do livro, a capa já gasta mostrando “Long John Silver”, o flibusteiro, o perna-de-pau, garrucha na mão, procurando o ouro e a prata escondidos nas rochas daquela ilhota perdida no mar. No ombro esquerdo, garras fixadas perto do chapéu de três bicos, estava o papagaio, repetindo os dizeres do pirata.
O cronista tinha e tem horror desse tipo de ave. Dizer que papagaio é uma ave é ser muito pretensioso, pois o bicho é desengonçado e só se põe bem quando aparafusado nos galhos de árvores ou nas ombreiras dos donos. Cuida-se, na verdade, de um animal pertencente à família dos psitacídeos, apelido que o cronista não gostaria de ter. Imaginem, no episódio da prisão ilegal do advogado na Câmara dos Deputados, xingar-se alguém, enquanto pendurado nos ombros de um dos carrascos, de psitacídeo. Ficaria horrível o epíteto, acompanhando a criatura pelo resto da vida...
Vem a introdução a propósito da demissão do Secretário Nagashi. Posso elogiá-lo agora, pois não ocupa, mais, o importante cargo exercido desde 1999 na Administração Penitenciária do Estado de São Paulo. Já se sabe que o doutor Nagashi tem ascendência oriental, mas nem mesmo a proverbial paciência da raça foi suficiente para que mantivesse, a partir de época recente, a postura de sujeito passivo de múltiplas e infundadas críticas à atuação nos múltiplos e sérios incidentes terminados em mais de duas centenas de mortes concentradas entre a polícia e delinqüentes de categoria variada. O doutor Furukawa assumiu, sete anos atrás, um sistema absolutamente apodrecido, corrompido, embrenhado em ilicitudes cometidas em nome do próprio Estado, chafurdando os presos dentro de presídios em que os reclusos, literalmente, eram contidos nos esgotos pelos ralos enferrujados. A duras penas, superou algumas deficiências sistêmicas e, embora admitindo uma sorte qualquer de forcejamento na remoção e transferência dos presidiários, distanciou sua administração, em largo espectro, da terrível, execrável, repugnante até, direção atribuída aos Distritos pela Secretaria da Segurança Pública do Estado. Parece ter havido, em razão da diferença de ideologia, uma espécie qualquer de choque entre uma e outra Secretarias, disso não participando o Poder Judiciário, intrometido, quase indefeso, no meio de quase cento e cinqüenta mil presos espadanando detritos em todo o território do maior Estado da Federação. Na verdade, os juízes, na ativa ou aposentados, não deveriam aceitar tais encargos. Conheci o magistrado Nagashi Furukawa há quase quarenta anos. Na primeira vez, achei-o enquanto ele, jovem bacharel, exercia a função de escrevente. Vinte anos depois, encontrei-o pela segunda vez, se a memória não falha, exercendo a magistratura em Marília (ou seria Bragança?). Houve um terceiro encontro, durante debates sobre o Sistema Penitenciário e Lei de Execução Penal. Nunca mais o encontrei mas sempre o tive – e o tenho – como um competentíssimo agente do Poder Público, dedicando-se seriamente a tornar menos toleradas as agruras de muito antiga negligência do Poder Executivo no tratamento e recuperação dos delinqüentes. Sempre que há, no turbilhão político, o sacrifício de alguém, vai-se o melhor. Fica o pior, porque é, no meio de tudo, co-responsável pelas mazelas da desmetodisação, embarcando, então, no caudal dos que se agarram nos troncos esburacados da jangada. Nagashi Furukawa não é mais Secretário de Estado. Posso abraçá-lo e lhe dizer que, entre os dissabores de um velho criminalista, não o tive, nunca, nas malhas da minha rabugice.
